Por fim, sou feliz!
Testemunho de uma vocação contemplativa
Foi há pouco mais de há mais de seis anos que comecei a minha caminhada vocacional. Desde a minha conversão, no Verão de 1997, foram muitos os encontros que tive com Jesus. Pouco a pouco, Deus foi-me revelando o meu caminho. Quero convidar-vos a percorrer comigo a memória destes inolvidáveis encontros.
Chamo-me José Carlos e tenho 29 anos. Venho do sul de Portugal, de uma povoação denominada Monte do Salto, com 30 habitantes somente. Não há igreja e a educação religiosa dos habitantes está confiada unicamente ao exemplo dos mais velhos que foram educados na fé. Embora desde sempre tivesse o grande desejo de ouvir falar de Deus e de O conhecer, apenas pude aprender o Pai Nosso, a Avé Maria e uma ou outra pequena oração. tive que esperar até aos 9 anos de idade, para receber o baptismo.
Durante o tempo que frequentei o Ensino Secundário, participei num grupo de jovens católicos. Porém, as minhas intenções, como as da maior parte dos meus amigos, eram simplesmente o companheirismo e participar das festas e das viagens e não verdadeiramente a procura de Deus.
Coimbra, “mon amour”
Terminado o Secundário, e despertado intelectualmente para as grandes interrogações da minha existência pelos estudos de Filosofia, iniciei uma longa, profunda e muitas vezes abismal procura das respostas a essas dúvidas intelectuais. A minha ânsia e sede de espiritualidade começou a valer-se dos meios proporcionados pela Filosofia. Ingressei na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Filosofia, cheio de ilusões e senhor da minha independência.
A partir desse momento, Deus começou a aparecer no meu horizonte, sem, no entanto, se destacar muito na trama da minha vida. Com o estudo filosófico dos Santos Padres da Igreja, passei a admitir, ainda que só superficialmente, a existência de um Deus; estava, contudo, muito afastado de um encontro pessoal com Jesus.
Nesse ano, a inesperada morte do meu pai provocou em mim uma mistura de súplica e de rebelião ao mesmo tempo. Pela primeira vez, senti o absurdo da vida versus a certeza da morte. Procurei uma explicação na Filosofia.
Os anos seguintes foram marcados por uma espécie de vertigem que me arrastou para o abismo da minha existência, por não encontrar um sentido ou uma justificação para o sofrimento. Precisava de acreditar em alguém! Deus não me satisfazia espiritualmente, porque a Filosofia só me ensinava um Deus frio e distante, que nada parecia importar-se com o destino pessoal da minha vida.
O vazio que tinha dentro da minha alma só um Deus pessoal e íntimo o podia satisfazer. Perguntava-me: “Existirá um Deus assim? Onde está? Será que me ama?”. Estas interrogações inquietavam-me no mais profundo do meu coração. E sentia-me como um de tantos “anti-Cristo”, como um absurdo num mundo estranho e indiferente. Estava destroçado interiormente, intimamente, como todo o jovem que procura sem resultado a felicidade. E a Filosofia afastava-se do meu horizonte.
As minhas dúvidas existenciais ficavam sem resposta. Vivia decepcionado e mais perdido do que nunca, como uma barca à deriva, sem porto nem abrigo.
Encontro insuspeito
Um dia, aparentemente movido pela curiosidade que caracteriza os “amantes da sabedoria”, entrei numa livraria e, respondendo a um chamamento interior, comprei uma Bíblia: a minha primeira Bíblia! Corri para casa e comecei a lê-la como alguém que, depois da travessia do deserto, encontra uma fonte onde pode saciar a sua sede. As palavras de Cristo soavam-me tão simples e claras! Provocavam no meu coração uma sensação de ardor, como de um fogo que arde dentro sem que o pudesse ver. Um fogo de paixão! Sentia-me como um jovem quando se apaixona pela primeira vez, com a ilusão do primeiro amor.
Tinha encontrado, por fim, o que tanto procurava: o amor da minha vida! E a graça de Deus começava a trabalhar em mim, fazendo-me ver, pouco a pouco, a vontade de Deus. Como consequência de tudo isso, com uma decisão radical, deixei Coimbra e a Universidade, procurando a forma de responder ao amor misericordioso de Deus que começava a revelar-me a minha vocação.
O imperioso chamamento de Fátima
Regressei à minha terra, com a intenção de fazer uma peregrinação a Fátima, como sacrifício de reparação e acção de graças. Isto seria o início de uma vida nova, um “nascer de novo”, um emocionante retorno do filho pródigo à casa do Pai.
Logo vieram as provações. A minha família não compreendia que eu tivesse deixado a Universidade quando faltavam apenas alguns meses para me formar. E, sobretudo, não entendia o corte radical que eu estava a fazer com a minha vida que até então parecia encher a minha existência.
Pouco a pouco, também as amizades se foram tornando um campo de batalha e vi-me obrigado a abandonar muitas delas, embora confesse que inicialmente acreditava poder contagiá-las e levá-las para Cristo. Porém, Deus tinha outros planos para mim e para estas pessoas. Hoje estou consciente de que a minha entrega à Igreja é, antes de tudo, uma oblação silenciosa pela minha família e pelos meus amigos, na esperança de que também eles encontrem a felicidade e a salvação em Cristo.
Passado algum tempo, tive a graça de me encontrar com um sacerdote franciscano, amigo da família, ao qual confessei todas as minha dúvidas sobre o chamamento que estava sentindo. Por seu intermédio, o Senhor revelou-me qual era a sua vontade: retomar e concluir os estudos de Filosofia. Só depois Ele me enviaria um sinal.
Um sonho profético
Foi assim que regressei a Coimbra, onde concluí a licenciatura. Só que o mais importante ocorreria numa inesquecível noite de Verão, quando o Senhor me visitou com um sonho: Eu via-me a ingressar numa comunidade religiosa onde não havia somente religiosos, mas também crianças que brincavam à nossa volta. O Superior vestiu-me uma alba branca, como sinal de pertença à comunidade.
Nesse momento despertei do sonho, profundamente emocionado. Esse era para mim o sinal prometido. E, a partir dessa noite, passei a acreditar que Deus me chamava para sacerdote num comunidade religiosa. Quanto ao pormenor das crianças e dos jovens não lhe dei qualquer importância.
Pouco a pouco, a missa dominical, a confissão e a direcção espiritual passaram a se na minha vida uma constante. Assim, ia amadurecendo a minha vocação, ainda que não me sentisse suficientemente seguro.
Porém, o Senhor, misteriosa e silenciosamente, ia preparando a meu coração para outro encontro com Ele.
Descobrindo um Movimento novo
Conheci o Movimentos dos Missionários Servos dos Pobres do Terceiro Mundo numa palestra de apresentação que os seus missionários seminaristas fizeram na paróquia de Luso, em Portugal. Uma vez mais, o Senhor servia-se dos homens para me revelar o caminho da minha vocação. As expressivas palavras dos seminaristas tocaram o fundo da minha alma... e fez-se luz nela! Apenas concluída a palestra, falei com o Padre Álvaro e expus-lhe a minha situação e a intenção de ir para o Peru fazer um ano de experiência.
Dias depois, parti para Ajofrín para falar pessoalmente com o próprio fundador do Movimento, o Padre Giovanni Salerno. Os dias que ali passei, no Seminário Santa Maria Mãe dos Pobres, saciaram a minha sede de Deus. O intenso silêncio e a profunda vida contemplativa dos Irmãos seminaristas ensinaram-me o que é de verdade uma comunidade fraterna que tem como pilar a oração. Aprendi a gozar do silêncio. Saí dali com a convicção de que esse era o caminho vocacional que Deus me oferecia para ser santo.
Uma vez terminados todos os trâmites, viajei para Cuzco, onde cheguei na véspera de Natal de 1999. Vivi na comunidade dos Padres e Irmãos consagrados, servindo os pobres como missionário, ao mesmo tempo que discernia sobre a minha vocação. No momento em que vesti a alba branca que os Irmãos usam nas celebrações solenes da liturgia, o Senhor trouxe-me à mente o sonho que tivera, fazendo-me compreender a particularidade das crianças e jovens que formavam a comunidade sonhada. Então vi com clareza que era este o local onde Deus me queria.
O íman da contemplação
As experiências desses meses foram muitas, mas nenhuma superou a que vivi quando em Ajofrín descobri o gozo do silêncio e da oração. Isto fez que eu imaginasse que a vontade de Deus fosse a de eu ir um pouco mais além no meu discernimento vocacional, optando antes por ser sacerdote contemplativo Servo dos Pobres do Terceiro Mundo, pois o Movimento tem em Urubamba, perto de Cuzco, uma pequena comunidade de clausura para os seu membros que querem oferecer a sua vida pelos mais pobres no silêncio do claustro.
As dúvidas quanto a este ponto foram esclarecidas quando, num determinado momento, durante a Adoração Eucarística frente ao Santíssimo, tive a graça de escutar a voz do Senhor, que me dizia interiormente: “O que te falta é a coragem para dar esse passo mais. Eu quero que sejas sacerdote contemplativo”!
Na nossa “Casa de Oração” de Urubamba, os Servos dos Pobres do Terceiro Mundo podem viver mais a fundo a contemplação, num estilo de vida monacal, cheia da presença eucarística de Deus. A sua vida austera no recolhimento do claustro é inteiramente dedicada à oração e à adoração eucarística, com algumas horas de trabalho manual para ajudar os mais pobres.
Tive a oportunidade de conhecer esta humilde semente que Deus semeou no Movimento e que pouco a pouco vai germinando. E a verdade é que me identifico plenamente com o seu estilo de vida. Aguardo com esperança o dia em que possa integrar-me definitivamente nesta comunidade contemplativa.
Frequento ainda o Seminário “Santa Maria Mãe de Pobres”, em Espanha. Os estudos ajudam-me a amadurecer a minha vocação e abrem-me um imenso horizonte. A vida de comunidade constitui para mim um motivo para dar contínuas graças a Deus, pois é entusiasmante partilhar um mesmo ideal de serviço com os pobres. Enche-me de esperança por fazer parte de uma Comunidade jovem, constituída por jovens provenientes de vários países do mundo, com culturas e experiências muito diferentes, todos com a aspiração comum de serem santos.
E o Movimento correspondeu perfeitamente às minhas expectativas. Por este motivo, dentro de algum tempo farei o meu compromisso perpétuo, disposto a dar toda a minha vida ao Movimento. Estou profundamente persuadido de que a fidelidade a este Carisma levará muitos jovens à santidade e salvará a muitas almas. E posso dizer: “Por fim, sou feliz!”. Louvado seja Deus, que confiou em mim e me concedeu o privilégio da vocação contemplativa!
Termino, irmãos, consciente de que sou fruto das vossas orações, e assim vos peço com humildade, em nome de Jesus e de Maria, que continuem orando para que eu possa perseverar neste caminho de santidade. Pois não existe melhor forma de servir os pobres senão pela santidade!
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